Viral : Carta aberta de um jovem português à “anormal” da Joana Marques Vidal
Que acha? Deixe o seu comentário aqui.  

Carta aberta de um jovem português à “anormal” da Joana Marques Vidal

“Uma “anormal” no meio de um sistema político que se acha dono da justiça em Portugal.”

Publicado por Vamos lá Portugal em Viral
Partilhar no Facebook
1,280 1.3k Partilhas

"Carta aberta à anormal da Joana Marques Vidal.

Cara Procuradora. Escrevo esta carta porque concordo com a decisão de não a reconduzirem como Procuradora-Geral da República. Não passa de uma “anormal”. Uma “anormal” no meio de um sistema político que se acha dono da justiça em Portugal. Uma “anormal” que, nas últimas décadas, foi capaz de trazer justiça a rostos importantes da política e do sistema financeiro.

É hábito, quando um Procurador-Geral da República cessa funções, ouvirem-se e lerem-se agradecimentos e despedidas por parte de políticos e altos magistrados. Mas o seu caso é bem diferente porque agora quem lhe agradece e se despede sentidamente são portugueses como eu, sem poder. Escrevo, embora revoltado, porque me quero despedir da procuradora que fez renascer em mim e em muitos mais a fé na justiça portuguesa.

Uma fé que renasceu quando, pela primeira vez, vi um ex-primeiro ministro, José Sócrates, responder na justiça pelo que fez e ser detido sem as regalias do costume, logo à chegada do Aeroporto de Lisboa. Isto, quando agora é público o enorme esforço que Pinto Monteiro, ex-Procurador-Geral da República, fez para evitar investigações a Sócrates (o homem que o indicou para o cargo).

Renasceu quando vi um grande banqueiro, Ricardo Salgado, conhecido até como o “Dono Disto Tudo”, ser detido pela manhã na sua casa avaliada em mais de 1 milhão de euros. Renasceu quando vi esse mesmo banqueiro numa sala de interrogatórios ficar “profundamente chocado” enquanto eram anunciados todos os crimes por que iria responder.

Renasceu quando provou que nem o Estado pode ser imune à justiça ao anunciar a investigação às falhas operacionais no combate às chamas de Pedrógão Grande (com 18 arguidos) e na reconstrução das habitações destruídas pelos incêndios (com quatro arguidos). Isto, num país em que aplicar uma pena de prisão efetiva ainda demora quase cinco anos e pode ser atrasada por recursos que só os mais ricos podem pagar.

“As pessoas passam e as instituições ficam” disse o Presidente da República. Mas o problema é que com as pessoas erradas as instituições podem desaparecer: um Estado pode falir, um Banco pode fazer desaparecer milhares de poupanças ou uma floresta abandonada pode até levar centenas de vidas. Algumas dessas pessoas foram condecoradas pelo Presidente da República, outras receberam milhões em prémios na gestão de empresas publicas e outras simplesmente beneficiam da liberdade que não merecem. Enquanto isso, as pessoas certas são descartadas pelo sistema. Enquanto isso, a fé das pessoas, as que sempre ficam e sofrem as consequências, perde-se.

A minha fé renasceu quando fez cair um ministro de um Governo PSD, investigou um outro de António Costa ou quando não temeu atacar até o ex-vice-presidente de Angola. Renasceu quando anunciou a investigação a três secretários de Estado e vários deputados por pagamentos pela Galp, de viagens, refeições e bilhetes para diversos jogos da seleção nacional em 2016. Isto, num país onde deputados e governantes beneficiam de imunidade (apenas revogada com a autorização da Assembleia da República). Renasceu quando provou que os três grandes clubes de futebol portugueses não estão longe da justiça com as várias investigações e buscas nas sedes do lado obscuro do desporto.

Falou-se em negociações para a reconduzir, mas acabou ainda hoje por admitir que a hipótese de recondução nunca lhe foi colocada. Justificam a sua saída com a tradição do “mandato longo e único”. Mas o verdadeiro problema do poder instalado, da elite, para consigo foi e é apenas um: que o cargo de Procurador-Geral da República volte a ser respeitado em Portugal. O problema não é constitucional (porque a constituição permite a recondução), mas claramente político. As razões são verdadeiramente obscuras.

Por isso, Maria Joana Raposo Marques Vidal, os que agora a descartam afirmam que apenas querem “outro rosto”, seja ele qual for. Tudo, apenas porque não toleram que uma mulher, certamente recordada para a posterioridade como um peso pesado da justiça portuguesa, seja mais respeitada pelos portugueses do que aqueles que, responsáveis por nomeações, se perdem em jogos políticos. Eu não esqueço o seu legado.

Obrigado super-procuradora.

Tenho dito."

Partilhar no Facebook
1,280 1.3k Partilhas

Fonte: Gaspar Macedo
Crêdito foto: Gaspar Macedo

Goste/partilhe