Este homem paga as promessas dos outros, indo a pé a Fátima, em troca de dinheiro!

É pago para caminhar

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Por estes dias, Carlos Gil deverá estar na estrada. Terá saído de Mafra (terra natal do autor da promessa) no dia 5 de maio, mochila às costas, pouca coisa lá dentro, apoiado no bordão que foi buscar a casa dos pais. Os dois filhos, adultos, ficam como sempre na casa da família, na pequena aldeia de Murches, no concelho de Cascais. É lá que vive o pagador de promessas.

Carlos Alberto Barbudo Gil, 53 anos, vendedor de casas, profissão que completa com esta prestação de serviços – como lhe chama – cobra 2500 euros para ir a Fátima a pé. Por menos que isso reza o terço ou acende velas no santuário mariano. «É a honra de servir os outros. É assim que olho para o serviço que presto», diz ele, desenvoltura no falar, convicção para repartir. 

A história começa há cerca de 15 anos, depois de um esgotamento nervoso que o fez repensar a vida. Já era empenhado na paróquia, já participava no coro e na catequese, mas foi a impossibilidade alheia que, garante, o «empurrou» para a primeira peregrinação a Fátima.

«Não sei explicar, foi um ímpeto», diz ao longo da conversa, recuando ao tempo em que a família «não entendia o que estava a fazer». Carlos diz-se crente desde novo, da infância em Luanda à adolescência em Portugal, que a família de retornados percorreu de lés a lés. Terá sido uma reportagem da agência Reuters sobre ele, publicada no jornal inglês The Guardian, que desencadeou tudo: «Os telefonemas, os e-mails, eu não sabia o que se estava a passar.»

Contactam-no para peregrinar todo o tipo de pessoas, a maioria nunca chega a conhecer. Fazem-no porque «estão impossibilitadas, de alguma forma, pela distância ou razões de saúde ou outro motivo qualquer», de cumprir o que prometeram a Nossa Senhora de Fátima.
Foi assim que profissionalizou o serviço. Contactam-no para peregrinar todo o tipo de pessoas, a maioria nunca chega a conhecer. Fazem-no porque «estão impossibilitadas, de alguma forma, pela distância ou razões de saúde ou outro motivo qualquer», de cumprir o que prometeram a Nossa Senhora de Fátima ou outra figura religiosa qualquer. Pagam-lhe antecipadamente, por transferência bancária, e segue uma espécie de código de conduta que o impede de falar sobre os clientes, a quem prefere chamar «beneméritos».

À medida que se foi tornando conhecido, cresceu esse universo. Tal como a desconfiança. «Estou habituado aos julgamentos que as pessoas fazem, lido bem com isso. Não me conhecem, nunca estiveram comigo. Se estivessem, perceberiam que não sou um charlatão.

Sobre o pagamento de promessas por terceiros, «o Santuário de Fátima nada tem a dizer», diz a porta-voz, Carmo Rodeia, que remete para um comunicado oficial a propósito das reportagens no Natal de 2016: «Tendo surgido na comunicação social referências a um alegado envolvimento do Santuário de Fátima em ações de caráter comercial que pretendem garantir o cumprimento de promessas religiosas, esclarece-se que o Santuário de Fátima nada tem que ver com qualquer campanha desta natureza, e que repudia veementemente este tipo de iniciativas».

Cada peregrinação que faz é diferente. O pagador de promessas não é capaz de contabilizar quantas caminhadas já fez. Vai sozinho, desta vez, como na maioria, pronto para uma caminhada que dura sete dias

O vigário-geral da Diocese de Leiria-Fátima reporta para uma posição assumida em editorial do jornal Presente (órgão oficial da diocese) relativamente às promessas: «Se as pessoas fazem sacrifícios físicos, orações e ofertas a Nossa Senhora, com um espírito e intenção comercial, no sentido de “dou-te isto para que me concedas aquilo”, então é provável que fiquem dececionadas por não serem atendidas. As expressões de fé têm de ser verdadeiras e nunca um negócio nem pretexto para o comércio entre os homens.»

Carlos Gil não se preocupa muito com isso. Cada peregrinação que faz é diferente. O pagador de promessas não é capaz de contabilizar quantas caminhadas já fez. Vai sozinho, desta vez, como na maioria, pronto para uma caminhada que normalmente dura sete dias. «Outro serviço que presto é acompanhar a pessoa que quer peregrinar. O valor é o mesmo: 2500 euros.»

Cobra 2500 euros pelo serviço. «Achei que era justo. Ao princípio era em dólares, mais tarde é que passou a ser euros. Porque o serviço é vocacionado para o mundo lusófono, sobretudo para quem está longe.» 

E como é que chegou a esse valor? «Não sei dizer. Achei que era justo. Ao princípio era em dólares, mais tarde é que passou a ser euros. Porque o serviço é vocacionado para o mundo lusófono, sobretudo para quem está longe.» Nunca chega a conhecer, de facto, a maioria desses clientes. Outros conhece após a peregrinação. «Falo sempre sobre o meu serviço, mas sobre os beneméritos não falo.»

Faz apenas duas ou três peregrinações por ano. Chama-lhe «o padrão», o que não quer dizer que o número não possa crescer. Esclarece, à partida, que cada peregrinação diz respeito «apenas a uma pessoa. Por isso, muitas vezes, o difícil é escolher. Quando são peregrinações muito requisitadas, decido-me pelo que me contactar primeiro».

Depois desta que se avizinha, a Fátima, prepara-se para outra, no Brasil, à Senhora da Aparecida, onde os fiéis comemoram os trezentos anos da aparição. «Nesse caso são valores diferentes», que o pagador de promessas prefere não revelar. Diz apenas que o percurso e o custo será semelhante a outra peregrinação que já fez, em Angola, de Luanda à Nossa Senhora de Muxima.»

Por estes dias está a caminho, come e dorme «onde Deus quiser». Se for sozinho (em vez de acompanhar alguém em peregrinação, outro serviço que presta) não tem «nada marcado. Nem quarto nem restaurante, nada». «Não é postura de mendigo, é postura de entrega», esclarece. E apesar de dedicar parte da vida a pagar as promessas dos outros, nunca prometeu nada em nome pessoal. «Dentro da minha linha de pensamento e devoção, acredito que com o divino não se negoceia.»

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Fonte: Altamente · Crédito foto: Altamente