Carta aberta em defesa do juiz Neto Moura

“Escrevo esta carta para agradecer, porque conseguiu despertar a indignação de que este país precisa.”

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"Caro juiz. É agora vítima de uma enorme onda de indignação e por isso mesmo o defendo. Em causa está a sua decisão de retirar a pulseira electrónica a um agressor que rebentou o tímpano de uma mulher com socos. Semanas antes foi atacado por acusar uma vítima de violência doméstica de “adúltera”, “dissimulada”, “falsa”, “hipócrita” e “desleal”, justifican do o agressor.

Desde então são dezenas as personalidades que, embora as suas ameaças, dizem não temer que os processe e são dezenas de milhares as assinaturas em petições para o afastar. 

Escrevo esta carta para agradecer, porque conseguiu despertar a indignação de que este país precisa.Cresci e vivo como parte de um povo que se habitou a abanar a cabeça a uma elite de velhos rostos, velhas regras e velhas práticas. Seja na justiça, na política, no sistema financeiro ou nos negócios, os portugueses aprenderam a tolerar e ignorar aquilo que não pode ser tolerado ou ignorado.

Da mesma forma que hoje nos indignamos com as palavras de um juiz machista, eu peço que nos indignamos também com as ações de um político corrupto. Indignem-se com as promessas feitas que não são cumpridas.

Indignem-se com um homem que se prepara para processar quase duas dezenas de pessoas à custa dos contribuintes, porque beneficia enquanto juiz de uma isenção no pagamento das despesas com a justiça. Indignem-se com partidos que acumulam milhões de euros em capital isentos de impostos. Indignem-se com aqueles que alimentam uma vida de luxos com ajudas de custos por serem deputados ou presidentes de câmara.

Indignem-se com aqueles que, eleitos para um cargo, não fizeram mais do que enriquecer. Indignem-se com aqueles que fecharam os olhos aos que abusaram e abusam do poder. Indignem-se, quando aqueles que fecharam os olhos voltam a ser eleitos ou nomeados para altos cargos de Estado.

Indignem-se com aqueles que não impediram, ignorando avisos, que centenas de pessoas morressem em incêndios que nunca deveriam ter acontecido. Indignem-se com aqueles que deixam sobreviventes e vítimas desses mesmos incêndios a dormir em barracas e autocaravanas, anos depois das catástrofes.
Indignem-se com aqueles que deixaram desaparecer milhões de euros em donativos para essas vítimas.

Indignem-se com uma crise que empobreceu centenas de milhares de famílias. Indignem-se com aqueles que não preveniram essa crise e, anos depois, fingem terem feito de tudo para a prevenir.

Indignem-se com banqueiros que, embora condenados, ainda estão para cumprir as suas penas.Indignem-se com aqueles que nunca chegaram sequer a ser julgados.
Indignem-se quando outros, menos “importantes”, são destratados por não pagarem um empréstimo em troca de colocarem comida na mesa. 

Indignem-se com aqueles que exigem mais embora já tenham muito. Indignem-se com aqueles que se dizem “vítimas”, mas beneficiam de luxos injustificados. Indignem-se, sem medo de processos ou jogo sujo.

Acima de tudo, troquemos este estado de comodidade pela indignação contra aqueles que são verdadeiramente dissimulados, falsos, hipócritas e desleais, como senhor.Enquanto se diz “triste” e “abatido”, lembre-se das mulheres que atacou apenas por serem vítimas. 

Por isso, defendo-o porque não passa de mais mais um indivíduo que se habituou, durante décadas, a não ser contrariado. Faz parte da elite que pensa não ter obrigações para com os portugueses. Agradeço-lhe, porque embora não sirva para juiz foi importante para provar que o povo português ainda se sabe indignar.

Tenho dito."

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Fonte: Facebook Gaspar Macedo · Crédito foto: Facebook Gaspar Macedo