Carta aberta de um jovem português em defesa de Valdemar Alves

O compadrio.

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"Caro presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, o senhor é agora vítima de uma enorme onda de descontentamento popular e pode contar por isso comigo para o defender, mesmo sozinho. Escrevo-lhe esta breve carta para lhe dar os parabéns. Conseguiu, em plena televisão nacional, ser o melhor exemplo de um dos principais problemas deste país: o compadrio. Por isso é que o defendo. Por não ser nada de novo para este país, senão mais uma nódoa num pano pintado de preto e chamuscado pelo fogo.

Faz parte daquele grupo a que muitos, infelizmente, têm de chamar “presidente” ou “líder”. Do grupo que veste os coletes nas tragédias, abraça umas pessoas e tira umas fotos, mas despe-se de responsabilidades durante o resto do ano. Faz parte daquela elite com cargo, mas sem valores. Faz parte do problema que divide os cidadãos entre primeira e segunda classe, os amigos do presidente e os restantes. 

Um compadrio que vai desde o presidente de câmara capaz de deixar homens, mulheres, crianças e até idosos, vítimas de incêndios, completamente desalojadas enquanto o dinheiro a que tinham direito para reconstruir as suas casas é usado noutras, apenas com a piscina ou a casota do cão queimada. 

Um compadrio que vai desde as escolas com escadas de mármore, granitos polidos ou campos específicos para pratica de vólei de praia, até a outras que fecham com as infiltrações no teto ou tetos em queda. Desde escolas que receberam obras avaliadas em 10 milhões de euros até outras, em fila de espera desde 2005 para acabarem com as infiltrações nas casas de banho. 

Um compadrio que vai desde os políticos da “descentralização” ou da “valorização do interior”, até aos indivíduos, esses mesmos políticos, que desviam os fundos comunitários de áreas pouco desenvolvidas para construir mais uma linha de metro em Lisboa. Um compadrio que construiu duas pontes no Tejo, mas que se esqueceu de construir hospitais e escolas no interior do país. 

Um compadrio que vai desde a criança com cancro que luta também contra a falta de meios, até à presidente de uma associação em torno de doenças raras que usa os fundos para comprar roupa e marisco caro. Desde o casal de quase reformados a ser despejado de uma habitação social, até ao banqueiro que destruiu poupanças de milhares de famílias e que, anos depois, ainda respira a liberdade de umas férias num paraíso tropical qualquer. Desde primeiros ministros que beneficiam grupos de construção, até ao presidente de junta dono da empresa que faz sempre todas as obras da freguesia. Desde homens e jornalistas anticorrupção, mas que afinal são os mais corruptos. 

Um compadrio que vai desde o homem que compra, usando informação privilegiada, um prédio por 374 mil euros e acaba por o vender por quase 6 milhões de euros, até ao vereador de um município, o mesmo homem, que fala fervorosamente contra os especuladores, aqueles que “impedem os Lisboetas de viver Lisboa”. Desde a mulher com participação em empresa de alojamento local, em parte construída com fundos comunitários, até à presidente de um partido que ataca o alojamento local e defende a saída da União Europeia. 

Quero que o senhor saia do escritório onde agora certamente se fecha praticamente o dia todo, com receio do povo. Caminhe um pouco pelos escombros da terra onde foi eleito para dirigir e pense na angústia que adicionou às vidas já abatidas pelo mal do fogo. Se o que escrevo faz de mim populista então sou com orgulho. Mais vale ser populista que corrupto. Mais vale estar do lado certo que do lado de um homem que influenciou os sentimentos das vítimas em altura de eleições, mudou até de partido para dar imagem de “alternativa”, mas deixou alimentar uma rede de influência na gestão dos fundos a que não lhe pertencem. 

Por isso, “senhor presidente”, está de parabéns. Parabéns por não ser nada de novo, senão a “exceção” que afinal é a regra histórica num país de más regras.

Tenho dito."

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Fonte: Gaspar Macedo · Crédito foto: Gaspar Macedo