Carta aberta de um jovem português a um português “ignorante”

Carta aberta

Partilhar no Facebook
394 394 Partilhas

"Caro Arlindo Consolado Marques.

Muitos não o conhecem e outros tratam-no como um ignorante e caluniador. Em 2017 tornou-se mediático por denunciar, através de vídeos e fotos, a poluição no rio Tejo provocada por despejos ilegais de resíduos no rio e por isso foi processado pela empresa de celulose Celtejo, que exige de si uma indeminização de 250 mil euros por “calunia”. Nas televisões foi tratado até por um certo número de indivíduos como “ignorante” e “exagerado” embora a investigação feita tenha concluído que as celuloses são a causa da degradação das águas do Tejo. Continua até ao dia de hoje a pagar sozinhos os custos da verdade.

Escrevo esta carta porque lhe quero pedir desculpa em de um país onde fizemos e ainda fazemos de heróis certos políticos e famosos, mas ignoramos, quase que nos esquecemos, que os verdadeiros heróis são indivíduos como senhor: indivíduos simples, que nunca se sentaram na Assembleia da Republica ou que nunca foram donos de um espaço de comentário numa estação de televisão qualquer.

Quero pedir desculpa em nome de um país que fecha os olhos enquanto um velho guarda prisional e ambientalista gasta milhares de euros na defesa de um processo que não merece. Também eu sou “ignorante” por não conseguir compreender o meu país, onde uma empresa que produz pasta de eucalipto consegue escapar ao pagamento de várias as multas (de milhares de euros) a que é condenada a pagar por poluição.

Acusam-nos de “exagerados”, como Cândida Almeida, ex-diretora do Departamento de Investigação e Ação Penal afastada por Joana Marques Vidal, quando disse que "Portugal não é um país corrupto" e que existe uma "perceção exagerada” da dimensão deste crime. Anos depois Joana Marques Vidal, a Procuradora-Geral da República mais implacável de sempre, considerou que o problema da corrupção em Portugal “tem uma dimensão que é urgente atacar" e que a reposta política “é fraca”.

Vivemos num país onde os pequenos são engolidos pelos grandes lobbys. Enquanto um simples ambientalista é processado em centenas de milhares de euros, uma música de agradecimento a José Sócrates é ainda entoada em jantares por centenas de portugueses. Enquanto um lesado do BES é processado pelo Novo Banco, a defesa de Ricardo Salgado festeja o afastamento do juiz Carlos Alexandre. Enquanto um ministro bate o pé aos contratos ruinosos com as empresas energéticas, logo depois é convenientemente afastado e substituído. Enquanto um político como Isaltino Morais é condenado e preso, anos depois volta a ser eleito na mesma concelhia como presidente de câmara. Enquanto uma comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos é encerrada sem sequer serem públicos os resultados das auditorias independentes, Armando Vara, ex-gestor da CGD acusado de receber milhões de euros em subornos, continua a atrasar o seu julgamento com recursos que só os mais ricos podem pagar. Enquanto certas forças políticas se vendem como “nova solução”, um enredo de velhos rostos com décadas de empobrecimento publico lidera essas mesmas forças e até o deputado João Galamba, participante nos jantes de milhares de euros com José Sócrates pagos pelo amigo, é nomeado para Secretário de Estado da Energia.  Enquanto se passam anos a defender ministros incapazes, no último ano antes das eleições um primeiro-ministro decide substituir subitamente esses mesmo ministro tóxicos. Enquanto uma jornalista é demitida da sua estação de televisão, processada e caluniada por grandes nomes da política nacional, anos depois esses mesmos grandes nomes “condenam” e mostram “repudio” pelos indivíduos que essa jornalista investigou e eles tanto defenderam no passado.

Vivemos num país onde os pequenos se deixam enganar pelos falsos “independentes”. Um deputado é nomeado para presidir uma entidade independente que regula os Serviços Energéticos, um ano depois de vários governantes terem sido afastados por receberem prémios de grandes empresas energéticas. São vários os ministros e Secretários de Estado que concessionaram grande obras púbicas e acabaram nos conselhos de administração das empresas com que negociaram. Uma Procurada-Geral é afastada mesmo sendo um exemplo de justiça nunca antes visto.

Por isso, caro guardião do Tejo. Sei que é conhecido como o guardião do Tejo, mas representa bem mais do que isso. É a personificação perfeita de uma nação que perdeu o sentido de justiça ou talvez nunca o tenha chegado a ter. Seja no ambiente, na política, na economia ou nas finanças. Uma nação que se divide entre os ignorantes lúcidos e uma sofisticada máquina de mesquinhice. Uma nação de “ignorastes” liderada por quem esconde os verdadeiros pretextos. Uma nação que vê heroísmo num grupo de engravatados, condecora-os até, e dispensa ou ignora os verdadeiros heróis. Para mim o senhor é um herói, com ou sem condecoração.

Tenho dito."

Partilhar no Facebook
394 394 Partilhas

Fonte: Facebook Gaspar Macedo · Crédito foto: Facebook Gaspar Macedo