‘Sou avariado dos cornos, como todos os grandes chefes’

Todos os detalhes no interior.

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Aos 40 anos Ljubomir atingiu um patamar de sucesso invejável. Mas também já passou por muito. 

Nascido em Sarajevo (atual Bósnia-Herzegovina) passou pela guerra, foi refugiado, começou a trabalhar como padeiro aos 14 anos, passou por restaurantes com cozinhas cheias de ratos e, mais recentemente, quase morreu num acidente de mota. Numa entrevista sem papas na língua fala sobre tudo isso, mas também sobre os melhores momentos que viveu na cozinha, a educação dos filhos e clientes insuportáveis.

A vida de um chefe também tem momentos de descontração?

Então não tem? Eu curto a vida p’ra caraças. Dificuldades já passei muitas, agora gosto de tirar o meu tempo, de descontrair. Gosto de me sentar a tomar um copo, claro que sim. A vida na cozinha é uma vida hardcore. Quem trabalha na cozinha do modo como nós trabalhamos ou é maluco ou é drogado ou é chanfrado dos cornos. Não tem outra hipótese. Esta vida é dura.

E o Ljubomir considera-se o quê?

Avariado dos cornos. Completamente. Se fosse drogado não estava aqui. Sou avariado dos cornos, como todos os grandes cozinheiros. Nenhum bate certo daquela pipoca. É preciso estares poucas horas com a família, é preciso teres as veias das pernas todas rebentadas - já fui operado para aí umas quatro vezes. Às vezes deito-me às quatro da manhã e tenho de acordar às sete para ver os filhos aquela meia hora e levá-los à escola. É preciso ser um bocadinho avariado dos cornos para seguir esta vida.

E compensa?

Compensas quando tens tempo livre. Quando conquistas a vida e consegues obter algum sucesso tens tempo. Daqui a quatro, cinco, seis meses, quando o restaurante estiver impecável, vou pegar nos filhos e vou quinze dias para fora. Agora ainda tenho de me preocupar, mas quando as coisas estiverem nos carris tenho uma vida normal, dois dias de folga, etc. Abri este restaurante para estar na cozinha mais tempo, para estar mais focado. Estou farto de correr de um lado para o outro, estou farto de televisão, quero estar sossegado no meu cantinho. Onde eu nasci, onde criei a minha vida foi com tachos e panelas atrás de um fogão. E estou a fazer exatamente isso.

Chega um momento em que o chefe é mais um empresário que tem de gerir e controlar contas do que alguém que está na cozinha?

Há chefes e chefes. Eu sou o filho da puta que anda todo queimado. Estou na cozinha. Há outros chefes que não - são gestores. Isso é a opção de trabalho de cada um e não critico ninguém. Não me faltam oportunidades e sugar babies para abrirmos 50 restaurantes e usar o meu nome.

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Fonte: Entrevista Jornal i · Crédito foto: Entrevista Jornal i