O roubo do século

“2017/18 não foi, de maneira nenhuma, o ano em que alguém fez o suficiente para se intrometer entre CR7 e La Pulga”

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"Aquilo a que assistimos nos últimos 10 anos do futebol mundial é irrepetível. Venha quem vier, jamais voltaremos a presenciar uma década tão dominada por dois homens em regime de (quase) absoluta exclusividade. Messi e Ronaldo, Ronaldo e Messi. Messi ou Ronaldo, Ronaldo ou Messi. Um depois do outro, um antes do outro, vezes e vezes e vezes e vezes sem conta. Bolas de Ouro, Botas de Ouro, Prémios FIFA, Prémios UEFA, Champions em catadupa, golos e mais golos atrás de golos e mais golos, principais destaques entre tantos outros prémios individuais e colectivos para ambos.

Um dia essa bipolaridade teria que acabar. O futebol, o mais democrático de todos os jogos, voltaria a deixar de estar dividido apenas entre dois “monstros” do jogo, submetido a uma ditadura nunca antes vista e protagonizada em partes iguais pelos dois maiores talentos da história. Mas esse dia não podia ser hoje. Nem agora. Nem este ano. 2017/18 não foi, de maneira nenhuma, o ano em que alguém fez o suficiente para se intrometer entre CR7 e La Pulga. Com todo o respeito e admiração que o genial Luka Modric nos possa merecer (e merece!!!) ao pé destes dois o médio croata é “apenas” um mero mortal...

54 golos marcou Cristiano Ronaldo na temporada que serve de diapasão aos prémios agora atribuídos. 44 pelo Real Madrid (15 na Champions League) e 10 pela Selecção Portuguesa (4 no Campeonato do Mundo). Será que temos a real noção daquilo que está aqui em causa?!? São 54 golos ao mais alto nível e marcados por um só homem!!! Será que o facto de Ronaldo já nos ter habituado a números destes ano após ano, é suficiente para os começarmos a desvalorizar? Não... Não pode ser... Pelo meio ganhou a Supertaça de Espanha, a Supertaça Europeia, o Mundial de Clubes e a Champions League. Foi submetido a uma bizarra suspensão de 5 jogos logo no arranque de temporada, que o obrigou a partir de trás para (como tantas e tantas vezes) terminar novamente à frente. Tudo isto num período em que foi também sujeito a uma grosseira perseguição por parte do fisco espanhol, perseguição essa que se estendeu aos media do país vizinho. A resposta de CR7? Trabalho, golos, exibições de sonho, vitórias, títulos conquistados... Mais e mais e mais e mais, como sempre e desde sempre.

Lionel Messi não fez a coisa por menos: foi Pichichi e Bota de Ouro, marcou 45 golos e fez 18 assistências pelo Barcelona, números aos quais somou ainda 8 golos pela Selecção Argentina, para um total de 53 em 2017/18, apenas a um dos números de CR7. Pelo meio, ganhou a Liga Espanhola e a Taça do Rei, e colocou a alviceleste no Mundial 2018 com aquela épica exibição coroada com um hat-trick frente ao Equador em Outubro de 2017, a fazer lembrar Ronaldo na Suécia em Novembro de 2013...

Olhamos para isto tudo e é impossível não questionar: está tudo maluco?!? Melhor do que Messi no último ano, só mesmo Ronaldo! Perto de Ronaldo, só mesmo Messi! Foi mais do mesmo! Um depois do outro, um antes do outro, vezes e vezes e vezes e vezes sem conta! A única questão, hoje e de há 10 anos a esta parte, só pode ser uma além da óbvia: quem será o terceiro classificado atrás de Messi e Ronaldo ou de Ronaldo e Messi? Esse terceiro lugar no pódio, este ano, deveria ser de Luka Modric, ou até mesmo de Mohamed Salah, a quem a lesão na final da Champions terá “roubado” a possibilidade de sonhar. Quanto à outra questão, a tal que é óbvia, é a mesma de sempre: qual dos dois esteve melhor? E esta época parece-me evidente que foi novamente CR7.

Os prémios UEFA, FIFA e Bola de Ouro deveriam, uma vez mais, rumar ao museu do Funchal. Para o ano logo se verá, quem sabe se teremos novos intérpretes, novos candidatos, ou até mesmo um Messi ao seu melhor nível a justificar novas conquistas, mas este ano não. Este ano foi dele, este ano foi do Cristiano... Negar-lhe esse reconhecimento conquistado por mérito próprio é um escândalo. Uma vergonha. Algo cujas razões ainda estão por perceber e que, espero eu, nada terão a ver com as razões que levaram à patética expulsão da semana passada na sua estreia na Champions 2018/19 e, curiosamente, no seu primeiro regresso a Espanha após a decisão de rumar à Série A e à Juventus em Julho último.

Tudo muito feio. Tudo demasiado denunciado. E provavelmente tudo condenado ao fracasso. Porque aos sucessivos ataques Ronaldo responde, como sempre, dentro das quatro linhas. No terreno do Frosinone, num jogo complicadíssimo e encaixado entre a expulsão no Mestalla e a gala de entrega do prémio “The Best”, CR7 respondeu com uma exibição plena de sacrifício, entrega e abnegação, com um golo a inaugurar o marcador já perto do final e com uma poderosa arrancada aos 94 minutos (!!!) a “criar” o 0-2 do resultado final. Aos 33 anos, e após apenas mês e meio em Turim, Ronaldo já é o mais influente jogador de uma das melhores equipas da última década, num dos maiores clubes do Mundo. Portanto, se dúvidas existissem, ficam desde já dissipadas: contem com ele para mais um ano na luta por todos os prémios! Porque meus amigos... se mais Mundo houvesse, mais Mundo ele desejaria conquistar!

PS 1 - Dias antes, no mítico Camp Nou, o outro “alien” abria hostilidades na Champions com um hat-trick de sonho ao PSV, como quem diz: “Cristiano, vamos lá novamente a isto?”

PS 2 - O golo de bicicleta perfeita que Cristiano Ronaldo marcou em Turim no dia 3 de Abril de 2018, o tal que foi aplaudido de pé pelos “tiffosi bianconeri”, é apenas a cereja no topo do bolo que foi uma temporada a todos os níveis excepcional, mas ficará também como a imagem da vergonha dos prémios individuais que lhe foram negados este ano..."

Texto de Rui Brás

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Fonte: Texto de Rui Brás · Crédito foto: Texto de Rui Brás